quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O trabalho dos sonhos: a competitividade do mercado de trabalho

Jussimara Moraes

Grande parte da população sonha com um trabalho fixo. Aquele em que se tem um horário definido, realizando apenas as suas funções e terminando a carreira profissional se aposentando no mesmo emprego. A busca da estabilidade é muito grande, porém, com a competitividade, é preciso ter uma formação. Para muitos cargos o ensino médio não é mais o suficiente. É preciso ir além, e se especializar. Hoje, existem alternativas como cursar um técnico, faculdade e até mesmo fazer provas de concurso público. Salários altos, benefícios oferecidos para alimentação, transporte, entre outros, são fatores que atraem na hora de decidir que curso fazer para entrar no mercado de trabalho.
“Estamos passando por um verdadeiro período de crise, principalmente quando falamos da mão-de-obra não qualificada. Isso tem trazido como conseqüência um perfil de candidato com instabilidade profissional, na qual a carteira de trabalho é um histórico de vários empregos de pouco tempo”. É dessa maneira que a psicóloga organizacional Jussara da Silva Moraes, que trabalha com recrutamento e seleção de funcionários, vê atualmente o mercado de trabalho.
“Com carteira assinada, trabalhei três meses em um supermercado em Criciúma. Sem ser registrado, fui: cobrador de ônibus por cinco meses; office-boy quatro; montador de móveis cinco; carpinteiro, pedreiro e pintor três; trabalhei em um escritório de associação de aposentados por dois meses; montador de bicicleta durante três; entre outros que não lembro”. Essas são algumas das experiências de Giovani Bottini, brasileiro, 26 anos, que mora na Itália há três anos.
Em fase de adaptação no novo país, começou a executar a função também exercida no Brasil, na área da construção civil. Mas sempre intercalando com outras atividades. Fez uma viagem para Alemanha, onde trabalhou durante cinco dias na produção de sorvetes. Passando pelas Ilhas Canárias, trabalhou por dois dias em uma loja de produtos da Nasa. De volta à Itália, foi pizzaiolo por um mês. E agora, já faz um ano que tem a própria empresa de construção, na qual presta serviços de pedreiro, pintor, carpinteiro, com uma equipe. “O único problema na construção é a concorrência, os romenos oferecem um valor bem abaixo de todos, mas sempre consigo alguma coisa. Agora estou reconstruindo um prédio e ficarei lá sete meses”, conta o brasileiro.
Giovani não se vê em um trabalho para ficar durante anos. “Isso não existe, não acredito em contos de fada, quando se trabalha muito tempo numa empresa, nesse período é normal ficar doente, ter que sair, ou tirar umas férias para ir ao Brasil, e esse é um motivo para que a empresa demita funcionários”, ressalta. Para ele, o mercado de trabalho é um negócio que não deve ser seguido apenas em uma profissão. “Não procuro estabilidade, gosto de mudar, procurar e aprender coisas novas”. Ele já pensou várias vezes em voltar para o Brasil, mas escuta muito as pessoas reclamarem do país. De qualquer forma pretende voltar e montar um bar.
A preocupação em ter um trabalho estável, e assim ter um currículo bom, não é a de Giovani. Só que para as empresas, um dos fatores que conta muito é o tempo que a pessoa permaneceu no emprego anterior. É difícil contratar alguém que não pára por muito tempo em um trabalho. Para a psicóloga Jussara Moraes, o empregado ideal é aquele que faz uma história dentro da empresa e que acima de tudo saiba trabalhar em equipe. Ter uma competência técnica é importante, no entanto o diferencial é o comportamento, como ser flexível. "O que faz um profissional entrar na empresa é a competência técnica, e o que o faz sair é o comportamento. Por isso, que este profissional precisa ser alguém acessível, maleável, pois a parte técnica pode ser aprimorada através de cursos, treinamentos, mas um comportamento inadequado dificilmente pode ser corrigido”, observa a psicóloga.
Giovani não pensa dessa forma. “O dia que eu tiver um currículo bom, já estarei velho, e velho eles também não contratam. E não quero trabalhar pra ninguém, quero ter meu próprio negócio”. Ele ainda comenta que acaba se cansando do trabalho, e às vezes troca porque em outro será melhor remunerado. Acabou aprendendo a cozinhar e fazer pizza, e diz que é preciso olhar o lado bom das coisas. “Imagina: eu trabalhando a minha vida toda na construção de tijolos. Quando faltam cinco anos para eu me aposentar, eles decidem não fabricar mais tijolos, por vários motivos. O que farei?”
Já Mara Renata Gabriel, 21 anos, técnica em química e estudante de Química Industrial, desde os 18 anos trabalha com carteira assinada. Foi contratada em uma farmácia de manipulação, onde ficou dois anos e 10 meses. No papel teve demissão sem justa causa. Ela procura estabilidade. Ter feito o técnico foi muito bom para sua carreira profissional, com ele soube realmente o que queria seguir. “Gosto de química, além de ser uma área com vários seguimentos, podendo trabalhar com plástico, cerâmica, alimento, análise química, controle de qualidade, entre outros”, afirma a estudante.
O curso técnico é uma boa estratégia para ter uma profissão e entrar no mercado de trabalho. Uma vantagem é o custo baixo para quem não tem condições de fazer uma faculdade. Mara é um exemplo. Fez o técnico, conseguiu o emprego, e com o dinheiro que ganhava começou a fazer faculdade. Para a acadêmica, é muito importante ter trabalhado durante anos no mesmo lugar, principalmente na concorrência, para conseguir um novo emprego. “Isso mostra que é um profissional bom, se fosse outro com menos tempo, apenas meses, é de se pensar que alguma coisa não conseguiu cumprir. No tempo que fiquei, quem me entrevistar vai entender que eu consegui cumprir o exigido, e que realizei bem o que me pediam”, salienta.

A estabilidade no serviço público

Jilvanio Lippert da Silva, 37 anos, é natural de Torres, RS, atualmente mora em Brasília, DF, é formado em Contabilidade. Jilvanio é concursado e está satisfeito com o emprego que tem. Aos 26 foi aprovado para o cargo de auditor-fiscal da Receita Federal. “Estou em Brasília por opção. Na época do concurso fiz para São Paulo. Consegui, posteriormente, minha transferência para o Rio Grande do Sul, e depois, pedi para vir para Brasília, para fugir um pouco do frio do sul”, comenta. Teve seu primeiro emprego aos 16 anos. Logo depois entrou na faculdade, desde então tomou uma decisão, estudar para concursos públicos. O motivo era o melhor custo-benefício e ter estabilidade. “Para conseguir ganhar o que eu iniciei ganhando no serviço público, eu levaria muitos anos para ter o mesmo salário na iniciativa privada”.
Segundo o site www.pessoas.hsw.uol.com.br a busca de estabilidade no emprego, bons salários e a possibilidade de crescimento na carreira são os principais fatores que atraem em todo o país, todos os anos, cerca de 5 milhões de pessoas que se inscrevem em concursos públicos. Os salários iniciais variam de acordo com o nível de escolaridade dos candidatos. Para cargos de nível médio como técnico judiciário, escriturário e oficial de justiça, o salário inicial gira em torno de R$ 2 mil. Para os de nível superior (analista judiciário, auditor fiscal da receita federal, agente da polícia federal, etc.), o valor para o início do trabalho chega a R$ 7 mil.
Para ser aprovado em um concurso público não é tão fácil assim, é preciso saber muito de português, matemática, além das especificidades da prova para o cargo escolhido. Jilvanio estudou por conta própria. Aos 24 anos fez o primeiro concurso, para o Banco do Brasil, não teve aprovação. Segundo ele estudou pouco, como se fosse uma prova de segundo grau, chegando à conclusão de que milagres não existem, e aí sim, começou a estudar para valer. Pegava as melhores apostilas disponíveis no mercado e estudava durante horas diariamente. Quando tinha dúvidas, tirava com colegas que também estavam no mesmo ritmo de estudo, ou com alguém que dominasse a matéria. Para isso foi preciso abdicar de algumas coisas, tinha seu trabalho, porém para ter mais tempo para o estudo, deixou de namorar, de sair para festas, ir ao parque, fazer compras, visitar parentes, de se divertir. “O meu mundo passou a ser as apostilas. Também não ouvia músicas. Quando eu escutava alguma coisa, eram as lições e palestras em áudio”, ressalta.
Na segunda prova, foi aprovado para policial rodoviário federal, e continuou estudando. No terceiro concurso para técnico da Receita Federal teve aprovação, trabalhou por um tempo, mas mesmo assim deu continuidade aos estudos. Quando finalmente foi aprovado para auditor-fiscal da Receita Federal do Brasil, seu emprego atual, parou de estudar para concursos. Jilvanio não quis parar na primeira aprovação. “Me considero obstinado, se eu parasse, seria um sinal que lá dentro de mim teria algo me dizendo que eu não tinha condições de conseguir algo melhor, ou um sinal de acomodação, aceitando apenas uma pequena conquista na vida”. Comenta ter decidido que não era inferior a ninguém, se existem pessoas com QI superior, ou conhecimento muito superior, teria que estudar várias vezes mais para poder se igualar ou superar estas pessoas, mas que conseguiria.
Jilvanio explica que a estabilidade é necessária para evitar os mandos e desmandos dos políticos. “Poder fazer o trabalho com isenção, mesmo que isso signifique ir contra aos interesses de políticos e fortes grupos empresariais, seja autuando estes grupos, mandando para cadeia, ou simplesmente podendo fazer seu serviço honestamente sem que algum político diga: ‘Faça isso ou estará demitido’”.
Eder Policarpo está decidido, quer ser concursado. Aos 31 anos, formado em Farmácia, trabalha na profissão de segunda a sábado das 13h às 21h30. No período da manhã tem se dedicado aos estudos. Há uns dez anos fez quatro provas para concurso, não foi aprovado em nenhuma delas, estudava, no entanto, não foi o suficiente. Tomou a decisão por iniciativa própria, de reiniciar os estudos. Muitas pessoas de sua família são concursadas e sempre deram incentivos para que fizesse o mesmo. Mas não seguiu os conselhos nesse período. Agora, iniciando uma família, viu que estar no serviço público traz estabilidade e certa garantia para si, com salário digno, principalmente pensando no futuro.
O farmacêutico considera o ramo muito competitivo e agressivo no sentido de vendas quanto às diferenças de valores de uma farmácia para outra. “Gosto do meu trabalho, mas penso na minha família, e quero estabilidade”. Eder não tem nenhum concurso em vista, está estudando as matérias gerais e quando sair um de seu interesse vai estudar as matérias específicas. Tanto é que traçou uma meta. “No começo pensei em fazer concursos só na área de farmácia. Mas, hoje penso diferente, vou fazer um que me interesse de nível superior e sendo servidor continuo estudando e procuro uma prova que seja voltada para a área da saúde”, completa.